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Piometra: nenhuma cadela está a salvo |
Parecia
ser um dia normal. A administradora de condomínios Maria Inês Bonagura, de São
Paulo (SP), chegou em casa depois de um dia de trabalho e foi recebida
normalmente por Melody, sua cadela da raça beagle. "Ela é daquele tipo de
cachorro que cola quando está com algum problema. Nesse dia, sentei para usar o
computador, e ela, ao contrário de deitar na cama e ficar me espiando, deitou
ao meu pé", lembra. Melody tremia muito, mas como é friorenta, Maria Inês
a embrulhou em um endredon e tentou aquecê-la.
"No dia seguinte, levei-a à veterinária, mas como ela estava brincalhona e agitada como de costume, disse que não era nada. Deixei-a em casa e fui trabalhar. Só que à noite, quando voltei, foi a mesma coisa, da tremedeira". Logo de manhã, as duas voltaram à veterinária e Maria Inês solicitou que a veterinária encaminhasse a cadela para um raio X para certificar de que nada de errado estava acontecendo. Com o raio X, voltou à veterinária e naquela mesma tarde, Melody foi operada. Era um processo infeccioso chamado piometra, que se não tivesse sido tratado a tempo, poderia ter levado a beagle à morte.
Como acontece
A cadela, por algum distúrbio hormonal, começa a produzir progesterona (hormônio
sexual feminino) e esse excesso leva a uma alteração das células da mucosa
uterina. Com isso, ocorre o acúmulo de grande quantidade de líquido dentro do
útero. Segundo Sílvia Crusco, normalmente a piometra acomete a cadela no
diesto (período de 60 dias após o cio).
"Esse líquido acaba se contaminando, determinando a piometra", explica a veterinária Neísa. "Por causa do acúmulo, a infecção normalmente não responde bem ao tratamento com antibióticos, já que o líquido presente continuaria "alimentando" a infecção. Além disso, o emprego de antibióticos locais é de pouca valia, pois o formato do útero das cadelas (em "Y") impediria que a lavagem chegasse a todo o útero", explica.
"Além disso, muitas vezes, temos a piometra fechada, onde uma parte mais densa da vagina (o cevix) se encontra fechada, impedindo assim a introdução de uma sonda para lavagem. No caso de Melody, que foi uma piometra fechada, o quadro foi mais complicado, pois além de não ter o corrimento, que teria facilitado à dona da cadela detectar o problema, não teve eliminação do material purulento. Esse material retido dentro do útero aumenta a gravidade do quadro", diz.
"Se a Melody não tivesse sido operada naquele mesmo dia, ela poderia ter morrido, pois o caso era tão grave que no raio X já aparecia", diz. "Se a cadela não for operada a tempo, dificilmente sobrevive", observa a médica veterinária Sílvia Crusco, de São Paulo (SP). "Isso acontece porque a infecção que antes era uterina acaba se generalizando por todo o organismo. Temos aí uma sobrecarga renal, o que torna a cirurgia tardia mais arriscada", confirma a médica veterinária Neísa Lourenço, de Juiz de Fora (MG). Segundo ela, por meio do raio X é possível fazer apenas um diagnóstico presuntivo, que deve ser sempre analisado juntamente com o quadro clínico e com o hemograma, pois há um aumento considerável e característico no número de leucócitos (células de defesa). A ultrassonografia talvez seja o melhor método para confirmação da suspeita clínica", explica a doutora Neísa.
Sintomas
O pior é que nem sempre fica fácil identificar os sintomas da piometra. Se a
piometra se manifestar de forma "aberta", é possível perceber um
corrimento. "Esse corrimento normalmente se apresenta purulento, grosso,
mal cheiroso, e muitas vezes com sangue. Já se a piometra for fechada, não
teremos o corrimento e só veremos os sintomas da fase posterior, já de
intoxicação orgânica pela infecção uterina", diz a doutora Neísa.
Nessa fase, o animal apresenta um aumento no volume e no número de vezes em que
a cadela urina, bem como aumento no consumo de água. "A cadela fica apática
e pode ainda apresentar febre, vômito e cólicas, além de algumas vezes
percebermos um aumento abdominal", acrescenta a doutora Sílvia.
Castrar para
prevenir
Apesar da maioria dos casos se manifestar em cadelas a partir dos cinco anos de
idade, a piometra pode atingir animais mais jovens. Além disso, por atingir
mais cadelas que nunca tiveram cria, há uma mentalidade errônea que induz as
pessoas a cruzar suas cadelas para evitar a doença. "Melody teve piometra
dois anos depois de sua primeira cria", diz Maria Inês. Acasalar a fêmea
a fim de prevenir a infecção não é um método garantido. "A única
prevenção eficaz é realmente a castração. Aliás com ela, pela retirada do
útero eliminamos de vez o risco da piometra e diminui também o risco de
tumores de mama", diz a doutora Neísa.
O tratamento para a doença é a cirurgia para retirada do útero e ovários. "Já presenciei cura de piometra com homeopatia, mas como muitas vezes não temos como arriscar um tratamento, muitos veterinários homeopatas acabam indicando a cirurgia", conta.